A Máscara Rubra do Novo Hegemon

Os EUA não assistem calmamente à ascensão do novo ator hegemônico, a China, e alegam ter evidências de que o novo vírus teria vindo de um laboratório em Wuhan

Por Carlos Martins*

Crédito: WHO/P. Virot

Mike Pompeo, Secretário de Estado americano, leva adiante as declarações amarguradas e pretenciosas de Trump e levanta a dúvida da opinião internacional em relação à nova potência hegemônica proeminente, com um ato de intuito desmoralizador. Haveria a real possibilidade do vírus responsável pela Covid-19 ter vindo do Instituto de Virologia de Wuhan?

A atual pandemia acelera um processo já contemplado por Giovanni Arrighi: o fim de um hegemon (os EUA) sendo marcado pela ascensão de outro (a China). Para o autor, vemos que o período de “expansão material” estadunidense teria se finalizado há décadas e sua “expansão financeira” seria um dos estopins para o custeio da ascensão explosiva chinesa, marcada pelos sintomas de decadência expressos em crises econômicas advindas da especulação (tais como em 1929 e 2008). Do mesmo modo com que o século XIX teria somente se findado com as grandes guerras mundiais (um marco rubro de sangue), o século XX acabaria com a crise proveniente da Covid-19 e sua vestimenta marcada pelo horror escarlate de mais de 260 mil mortes pelo mundo.

“O Baile da Morte Vermelha” (A Máscara da Morte Rubra) de Edgar Allan Poe, sob um véu de análise e comparação, é uma boa metáfora para 2020. Durante uma peste, contemplaríamos a imagem do Príncipe Próspero como o Ancien Régime. Associando a ilusão da perpetuidade da hegemonia americana, o príncipe se tranca com sua corte em sua imensa abadia encastelada, cheia do luxo e excentricidade que somente a dominação de um império pode proporcionar. Ele se esquece de seu povo e promove baile de máscaras, como é observado e relacionado à abstenção estadunidense diante ao leme que guia a sociedade internacional.

Indo além, percebemos que, no sétimo salão da abadia, aposento decorado com grandes tapeçarias e tapetes negros, com cantos escuros e com uma única janela gótica de vitrais rubros, dando desconforto a quem o visita (uma alusão ao nosso atual ano), há um grande relógio de ébano. Cada badalada ecoa o estridente e aterrorizante som das crises econômicas para todos os outros salões, e estamos entre as doze badaladas retumbantes da meia-noite. Estamos no início do fim do poder de um ator que marcou o longo século XX como seu.

Porém, no sistema internacional, ninguém reina para sempre. A masquerade para surpreendida com uma nova figura entre os cortesãos: a doença personificada. Embriagado por sua própria altivez e movido pela sua aversão cheia de escárnio para com a covardia e a vergonha, Próspero confronta a figura espectral vermelha, assim como os EUA vêm construindo sobre seus pilares de poder já expostos pelo tempo uma política comercial “anti-China”. Mike Pompeo ter confirmado as declarações do presidente estadunidense, dizendo que o vírus pandêmico fora criado por laboratórios, contrariando a fala da Organização Mundial da Saúde, remete ao desembainhar da adaga, a reação da personagem de Poe. É inclusive anunciado o fim dos repasses financeiros para a OMS como uma atitude de revolta, e todos do baile percebem os sentimentos do príncipe.

Até onde os gritos convulsionais por atenção do Ancien Régime são infundados? Além do preconceito em si, são expostos certos fatos: a Organização Mundial da Saúde já deixou claro o interesse em ser convidada por Pequim para investigar tais percepções sobre o ponto inicial de disseminação do novo coronavírus, porém o embaixador chinês em Genebra, Chen Xu, deixou claro que não é momento para tal averiguação. Percebamos que essa resposta negativa dá margem ao fomento de especulações preconceituosas sobre a China. Porém, a Morte Rubra e o Príncipe Próspero se encontrarão no grande salão de tapeçarias negras sob o soar das doze badaladas: as badaladas finais de um mundo que não existirá mais, tal como o conhecemos.

* Aluno do segundo ano noturno do curso de Relações Internacionais na Universidade Positivo (2020).

Referências

ARRIGHI, G. O longo século XX. São Paulo: UNESP. 1996.

ARRIGHI, G. Caos e governabilidade. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 2001.

POE, Edgar Allan. Medo Clássico: Coleção Inédita do Autor: Tradução de Marcia Heloisa. Vol. 1. Rio de Janeiro: DARKSIDE, 2017.

WHO wants invite to China’s probe into virus origins. https://timesofindia.indiatimes.com/world/uk/who-wants-invite-to-chinas-probe-into-virus-origins/articleshow/75488617.cms

Pompeo says ‘enormous evidence’ virus came from Wuhan lab. http://www.rfi.fr/en/wires/20200503-pompeo-says-enormous-evidence-virus-came-wuhan-lab

Coronavirus: China will not invite foreign experts to investigate, for now. https://english.alarabiya.net/en/coronavirus/2020/05/06/Coronavirus-China-will-not-invite-foreign-experts-to-investigate-for-now

Coronavirus Survivors Want Answers, and China Is Silencing Them. https://www.nytimes.com/2020/05/04/world/asia/china-coronavirus-answers.html

The US is halting funding to the WHO. What does this actually mean?https://edition.cnn.com/2020/04/15/world/trump-who-funding-explainer-intl-hnk/index.html

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