A Política de Trabalho na Coreia do Sul

Pressão do trabalho, e más condições acarretam em protestos na Coreia do Sul, com direito a caracterização de Squid Game.


Por Elisa Spagnollo*


Crédito: Reprodução/Instagram oficial da KCTU (editada)


Cada vez mais no mundo do cinema, dramas e músicas coreanas, vêm tomando espaço nos catálogos da Netflix, nas playlists do Spotify e no dia a dia dos cidadãos ocidentais. Esse fenômeno conhecido como onda Hallyu, vem crescendo em todo o mundo.


A romantização do estilo de vida sul coreano, fica evidente por meio dos dramas que exibem uma perfeição nos relacionamentos, no Estado e na qualidade de vida. Obviamente, não é correto afirmar que essas ferramentas de entretenimento não condizem com o real, contudo é possível observar em vários dramas uma realidade que não é vivida pela maioria da população, fazendo com que o próprio povo acabe não consumindo o conteúdo utilizado para promover sua cultura.


Contudo, o mais novo sucesso das telas coreanas, “Squid Game”, bateu recordes na plataforma de streaming Netflix, alcançando 111 milhões de espectadores, desbancando séries norte-americanas com fã clube já estabelecido como "Sex Education". Esse sucesso não ficou só nas telas, Squid Game ou Round 6 como foi traduzido no Brasil, é um drama com uma história interessante, por mostrar a realidade de muitos coreanos. O drama se baseia em jogos com competidores endividados, falidos ou desesperados por dinheiro, e além disso, é apresentado nos primeiros episódios as condições de trabalho que os coreanos e estrangeiros são submetidos por seus patrões. Um drama ao mesmo tempo violento e emocionante, a resposta da propagação desse drama levou os trabalhadores inconformados com a forma de viver para as ruas de Seul (Capital da Coreia do Sul).


Essa insatisfação e manifestação de repúdio às atuais condições não é algo que surgiu agora, a luta da classe trabalhista coreana é algo de anos, e vários dramas realistas tratam o dia a dia dessa classe social. O The Korean Times, fez uma publicação em seu canal no dia 12 de março de 2021 com a elaboração de pesquisas que mostram as verdadeiras condições de muitos trabalhadores estrangeiros que chegam todos os anos no país, condições estas que são sem dúvidas uma forte inobservância dos direitos humanos.


A maioria dos estrangeiros vindos de outros países asiáticos, segundo a pesquisa, concentra seus trabalhos no campo, visto que este não é visado pela população jovem sul coreana, que buscam vivenciar a vida urbana. Os imigrantes que chegam no Estado, se submetem a trabalhos com baixo salário, sem proteção jurídica e em péssimas condições, vivendo em estufas sem banheiro interno, sem saneamento básico e tendo acesso somente a água fria, mesmo no inverno, onde geralmente atingem-se temperaturas negativas com propensão à neve.


Dia 20 de outubro de 2021, membros da Confederação Coreana de Sindicatos (KCTU) realizaram uma manifestação nacional, fantasiados com o uniforme de Squid Game, que foi o tema escolhido com o propósito de transmitir a indignação para a comunidade internacional. O grupo até produziu um vídeo promocional no estilo do drama, apresentando trabalhadores sul-coreanos pedindo ajuda do governo.


Os participantes bateram tambores, tocaram música alta, dançaram e seguraram cartazes que diziam “chega de desigualdade” e “emprego seguro para os jovens”. O governo de Seul alegou que essa manifestação de direitos violou as leis de prevenção de doenças infecciosas. Todavia, o porta-voz da central sindical, Han Sang-jin, expressou que acha injusto que protestos ao ar livre sejam considerados mais perigosos do que eventos esportivos com espectadores permitidos. Essa central sindical representa 1,1 milhão de trabalhadores, dos maiores conglomerados industriais do país, incluindo Hyundai, LG e Korail.


O governo sul coreano, vêm ignorando essa classe, e a página do instagram da organização vem cada vez mais ganhando seguidores. Espera-se que com essa luta social travada contra o governo, os trabalhadores nacionais e estrangeiros recebam condições melhores, qualidade de vida e salários dignos de suas atividades , porém somente o governo pode prover isso.


¹A onda coreana, também chamada de invasão coreana, é um neologismo referente a popularização da cultura sul-coreana a partir dos anos 1990.


*Aluna do sexto período noturno de Relações Internacionais na Universidade Positivo 2021.


Referências:


BUGLASS, Lucy. 'Squid Game' continues to break huge records for Netflix. 2021. Disponível em: https://www.whattowatch.com/news/squid-game-continues-to-break-huge-records-for-netflix. Acesso em: 25 out. 2021.


INFORMADO, Não. Prefeitura de Seul apresenta queixa contra sindicalistas que protestaram usando trajes de 'Round 6'. 2021. Disponível em: https://oglobo.globo.com/mundo/prefeitura-de-seul-apresenta-queixa-contra-sindicalistas-que-protestaram-usando-trajes-de-round-6-25245367. Acesso em: 25 out. 2021.


KWON, Jen. South Korean workers channel "Squid Game" to protest their real-life economic woes. 2021. Disponível em: https://www.cbsnews.com/news/south-korea-squid-game-labor-union-protest/. Acesso em: 25 out. 2021.


MIN-SIK, Yoon. [Newsmaker] ‘Squid Game’ pokes at the far side of Korea. 2021. Disponível em: http://www.koreaherald.com/view.php?ud=20211008000592&ACE_SEARCH=1. Acesso em: 25 out. 2021.


MIN-YOUNG, Lee; KANG-MIN, Kim. Migrant workers living in dire conditions in Korea [VIDEO]. 2021. Disponível em: http://www.koreatimes.co.kr/www/nation/2021/03/113_305517.html. Acesso em: 25 out. 2021.