A presença militar chinesa no Djibouti

Como ela diz muito sobre a postura do país asiático frente à África

Por Gabriel Teixeira F. de Souza*

Primeira base militar chinesa no Djibuti. Crédito: AFP/Reprodução

O Djibouti é um país no continente africano que vem ganhando cada vez mais a atenção de uma das maiores potências militares do mundo: a China. Recentemente, com a pandemia da COVID-19, as tropas chinesas e americanas no país ficaram em estado de alerta para prevenirem insurreições militares em suas bases, o que novamente esteve sob o risco de ocorrer.

Há alguns anos, as relações chinesas frente ao continente africano têm sido ponto de debate nas Relações Internacionais. Primeiramente, por sua presença econômica; depois ideológica; e, por fim, no caso do Djibouti, pela questão militar. O que faremos na sequência será, portanto, buscar entender a função formal e também a significância da primeira base chinesa ultramarina nas relações China-África.

Em 2017, o governo chinês declarou que teria a sua primeira base militar no exterior – um “hub” de suporte logístico – para suas tropas do Exército de Libertação Popular da China, que atuariam como parte das operações de paz no país. Essa, contudo, é apenas uma das explicações.

Não obstante, é possível vermos também aspectos bastante simbólicos e mais estruturais das relações África-China. Desde as décadas de 50-60, a China vem estreitando suas relações com o continente africano, por diversos motivos. Um deles é a construção da identidade entre os países africanos recém-independentes junto à mais nova República Popular da China (de 1949). Outro ainda diz mais respeito à China, cujo objetivo era o de estreitar os laços para exportar a revolução socialista por todo o continente – tanto quanto fosse possível.

Isso significou empréstimos do país asiático para muitas nações africanas, permitindo sua reconstrução (mesmo que ao custo das contas públicas chinesas). Isso também permitiu que essas regiões relacionassem a sua própria identidade àquela da China, apesar da distância e das diferenças culturais.

De lá pra cá, as relações entre a China e os países africanos só vêm aumentando, com uma postura econômica cada vez mais agressiva – principalmente na infraestrutura – com novas instituições (como o FOCAC – Fórum de Cooperação China-África) e visitas constantes entre os líderes, que aliás são muito bem recebidos pelos comandantes chineses. Isso, claro, não vem sem interesses políticos – por exemplo, o acordo com países africanos de não-interferência em assuntos internos voltados a Direitos Humanos, especificamente nos palcos multilaterais como a ONU (a China no Conselho de Segurança e seus parceiros africanos nos demais órgãos, incluindo a Assembleia Geral).

Portanto, não seria novidade que logo também a postura chinesa se tornaria – porque não – militar, no continente. O Djibouti, país que tem posição geopolítica essencial no cenário africano, é também produto desse processo. A base militar chinesa – embora seja de 2017 – é fruto de anos de políticas econômicas, sociais e principalmente ideológicas na região.

Não significa somente uma postura mandatória da China perante o continente, ou seja, não se trata de controlar o que os países africanos farão, como geralmente tendemos a ver as questões militares. Trata-se, em primeiro lugar, de manter a cooperação entre esses países, que até então vem sendo bem frutífera, com crescimento para ambos os lados. Em segundo, trata-se de defender ideais que são comuns para esses países – incluindo-os nos palcos globais.

Vemos que a grande política chinesa no continente africano é materializada pela sua presença militar no Djibouti e, embora pareça interventora, nos mostra que, na realidade, é fruto de um processo de relação mútua e de cooperação econômica, social, ideológica e, também, de segurança.

* Aluno do terceiro ano noturno do curso de Relações Internacionais na Universidade Positivo (2020).

Referências

ANSHAN, Li. China and Africa: Policy and Challenges. World Security Institute, China Security, Vol.3 No. 3, 2007, p. 69;

MELBER, Henning. Africa and China: Old stories or new opportunities?. EM: Handbook of Africa’s International Relations, New York: Routledge International, 2014. p. 333;

TAYLOR, Ian. A challenge to the global liberal order? The growing Chinese relationship with Africa. EM: Handbook of China’s International Relations, New York: Routledge International, 2010. p. 187;

NG, Teddy. CHAN, Minnie. Chinese and US militaries on Covid-19 alert in Djibouti as rivals face common threat. Disponível em: https://www.scmp.com/news/china/military/article/3081460/chinese-and-us-militaries-covid-19-alert-djibouti-rivals-face

ZHOU, Laura. How a Chinese investment boom is changing the face of Djibouti. Disponível em: https://www.scmp.com/news/china/diplomacy-defence/article/2087374/how-chinese-investment-boom-changing-face-djibouti

GAO, Charlotte. China Officially Sets Up Its First Overseas Base in Djibouti.Disponível em: https://thediplomat.com/2017/07/china-officially-sets-up-its-first-overseas-base-in-djibouti/

CHANDRAN, Nyshka. China says it will increase its military presence in Africa. Disponível em: https://www.cnbc.com/2018/06/27/china-increases-defence-ties-with-africa.html

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