Afeganistão: O Cemitério de Impérios

Mais um Império cai diante do Estado Afegão.


Por Leticia Cunha* e Mariana Miretzki**


Crédito: Hyperscience (editada)


Conforme o mundo se volta para o que está acontecendo no Afeganistão, é possível observar certas tendências históricas aparecendo. A recente retomada do Talibã ao poder gerou muita comoção, os vídeos e as imagens que circularam na internet são impactantes, fazendo muitos se perguntarem qual será o futuro da população e do Estado em meio a tantas inseguranças.


Para entendermos como o Afeganistão chegou nessa situação, devemos olhar para o passado. O território tem uma das mais antigas histórias de todo o mundo, possuindo até mesmo um sítio arqueológico, seu povo carrega uma grande diversidade étnica, já tendo passado por uma série de conflitos e, principalmente, invasões.


O Estado, situado ao norte do Paquistão e da Índia, próximo à Rússia e à China, foi o local onde se datam os primeiros registros de migrações humanas e assentamento de grupos sedentários. Além disso, sua localização sempre foi uma das principais características, que atraíam diversos Impérios que buscavam estabelecer rotas comerciais que cruzassem da Ásia à Europa. Tamanha era sua importância estratégica que, em 330 A.C, Alexandre O Grande invadiu a região. A invasão não foi fácil e custou a Alexandre muitos soldados, que acabaram sendo mortos em batalhas contra os povos locais.


Essa foi apenas a primeira de muitas invasões que ocorreram no Afeganistão. É importante ressaltar que, por mais que muitos tentassem, nenhum Império, Governo ou milícia conseguiu solidificar seu poder por tempo prolongado na região e, por isso, o país recebeu um apelido um tanto quanto inusitado: Cemitério de Impérios.


Como afirmado pelo historiador Filipe Figueiredo (2019): “entrar e conquistar o Afeganistão pode não ser difícil, mas manter seu controle pode ser fatal, já que as montanhas e a resistência local complicam uma ocupação duradoura”. Nem mesmo o poderoso Império Britânico, que buscava conquistar a Ásia Central antes do Império Russo, foi capaz de vencer a luta contra os afegãos.


As duas primeiras tentativas inglesas de dominar a região, uma em 1839 e outra em 1878, resultaram em guerras em que o Afeganistão foi considerado o vencedor. A terceira tentativa ocorreu no século XX, em 1919, e teve o mesmo resultado, esse último conflito é de extrema importância para os afegãos, já que o ano carrega o símbolo da Independência do país.


Um ano depois, durante a década 20, houveram tentativas de reformar o Estado Asiático que resultaram em uma guerra civil. Os embates continuaram até que, em 1979, durante a Guerra Fria, a URSS invadiu o território. Esse foi um período doloroso para os afegãos, visto que tiveram muitos refugiados e mortos, e, após esse fato, as tropas soviéticas foram retiradas em 1988. Aproximadamente neste período que o Talibã surge, sendo financiado pelos Estados Unidos para lutar contra os soviéticos e posteriormente, em 1996, tomam controle do Estado. Esse controle se estendeu até que, em 2001, após o ataque às torres gêmeas, os EUA invadem o Afeganistão pressionando o Talebã a entregar o poder.


Em agosto do presente ano, após vinte anos dos acontecimentos citados do parágrafo anterior, o governo dos Estados Unidos, famoso por ser o Estado com a maior indústria bélica do planeta, retirou 100% de suas tropas do Afeganistão, dando fim ao conflito mais longo de sua história. Essa decisão foi apoiada nos grandes gastos que o governo estava tendo e a impopularidade que essa guerra tinha entre os americanos.


De qualquer forma, essa situação só reforça o estereótipo afegão que o levou ao apelido Cemitério de Impérios. Com o Talebã de volta ao poder, surgem questões não respondidas até o momento de como esse grupo extremista irá se comportar no governo, e como ficarão os direitos humanos na região, principalmente o das mulheres.


*Aluna do segundo período noturno no curso de Relações Internacionais da Universidade Positivo (2021)

**Aluna do segundo período diurno no curso de Relações Internacionais da Universidade Positivo (2021)


Referências:

BBC. Afeganistão: a história de um país em ponto estratégico apelidado de ‘cemitério de impérios’. BBC. 2021. Disponível em: <https://www.bbc.com/portuguese/internacional-57516844>. Acesso em: 03 de setembro de 2021.


PODER 360. Biden decide manter saída dos EUA do Afeganistão até 31 de agosto. 2021. Disponível em: https://www.poder360.com.br/internacional/biden-decide-manter-saida-dos-eua-do-afeganistao-ate-31-de-agosto/. Acesso em: 07 set. 2021.


FIGUEIREDO, Filipe. O cemitério de impérios no Afeganistão. 2019. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=m6kLr6AmZyI. Acesso em: 07 set. 2021.


Afeganistão: o cemitério dos impérios. [Locução de: Geraldo Zahran, Debora Prado, Aureo Toledo]. [S I]. 03 de setembro de 2021. Podcast. Disponível em: https://content.blubrry.com/chutandoaescada/Chute-229.mp3. Acesso em: 05 de setembro de 2021.


Talibã. [Locução de: Vitor Soares. [S I]. 21 de agosto de 2021. Podcast. Disponível em:https://d3ctxlq1ktw2nl.cloudfront.net/staging/2021-08-21/16115889cc0b067f2275c5756d331a0d.m4a. Acesso em: 30 de agosto de 2021.