Decolonialidade no cenário da música na América Latina

Atualizado: 19 de mai.

A América é, sobretudo, um continente marcado por toda sua diversidade e riqueza cultural, resumir tudo a um único país é como limitar a África apenas por Marrocos.


Por Alex Eduardo Bonotto Miczevski*

Crédito: Alfredo Jaar - Logo For América, trabalho exposto na Times Square, em Nova York (Alfredo Jaar/Divulgação) - editada

René Perez, rapper e compositor porto-riquenho, mais conhecido como Residente, trás para sua obra musical diversos fatos históricos, elementos culturais e artísticos para reafirmar que, a consequência dos estadunidenses se auto intitularem como “américa” ou “americanos” acaba por tirar o devido valor da verdadeira América.


A repercussão da obra musical de Residente é tão relevante que diversos estadunidenses, sobretudo ligados ao mundo do rap, utilizaram seus canais no Youtube para fazerem reacts à obra musical do artista. No geral, o grande questionamento levantado pelos youtubers se dava pela falta de uma expressão no inglês que se referisse aos Estados Unidos, mas sem tirar a representatividade de um continente inteiro.


De acordo com Marilena Chauí, a relação entre língua, identidade e cultura é imanente, uma vez que não há cultura sem língua e que a identidade é construída por meio de ambos aspectos. Assim como os termos racistas no português brasileiro acusam um passado escravista, a auto intitulação estadunidense como “américa” e “americanos” acusa uma cultura colonialista presente nessa nação, principalmente se analisarmos os episódios históricos retratados por Residente em sua música.


A violência colonial por parte dos Estados Unidos, de forma geral, tem início no século XVIII a partir da Revolução do Haiti, e é responsável por formar a cultura e identidade colonialista e, por consequência, isso se reflete na construção da língua. Logo, a primeira referência histórica que aparece no clipe de “This is Not America” demonstra as fortes ligações entre a crítica de Residente ao comportamento colonial estadunidense. A cena faz referência a Lolita Lebrón, uma ativista boricua defensora da independência de Porto Rico, colônia dos Estados Unidos, e por isso sem os direitos que os estados possuem. Lolita foi responsável por protagonizar um protesto na Câmara de Deputados dos EUA, reivindicando a independência porto-riquenha e se tornando, portanto, um grande símbolo do movimento separatista anticolonial porto-riquenho.


A partir disso, no clipe, a violência policial armada faz presença constante, acompanhada do encarceramento e da repressão mostrando que, ao passo que a imagem de América vem sendo diminuída e enxugada para unicamente um país, nos bastidores a verdadeira América vem sofrendo com diversos conflitos, perseguições e violência indiscriminada. Para além disso, uma outra interpretação também pode ocorrer no sentido de que a violência presente não é somente externalizada, mas ocorre também contra as “minorias” pelas próprias políticas internas dos EUA, que detém a maior população carcerária em termos gerais e relativos no mundo.


Durante todos os episódios de repressão e violência policial é presente a expressão da cultura principalmente latina por meio das danças e representações artísticas. Demonstrando primeiramente a beleza estética dos movimentos artísticos, sobretudo latinos e, por segundo, ao retratar a expressão artística em conjunto com a repressão e a violência policial, perpassando a ideia de institucionalização e normalização da violência, ao passo em que ocorrem em conjunto com atividades culturais locais.


Além da violência policial, Residente expõe também o militarismo latino, mais especificamente fazendo alusão aos falsos positivos na Colômbia, episódio em que, durante a guerra contra as drogas, militares matam civis inocentes para elevar as estatísticas de mortes de rebeldes das FARC (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia). A relação feita com os EUA é justamente pela influência do complexo militar industrial na expansão do militarismo, não só na Colômbia mas na América Latina como um todo, com a prerrogativa de lutar contra as drogas, mas servindo majoritariamente de laboratório militar e financiamento econômico estadunidense, visto que os EUA depende fortemente de seu complexo militar industrial para o crescimento econômico interno.


O rapper ainda tenta expressar que a historicidade, principalmente da América Latina, percorre todas as fronteiras entre a América. Uma das maneiras como isso é demonstrado é evidenciando que Tupac, (rapper estadunidense, forte ator do movimento negro) uma peça chave no movimento da contracultura estadunidense, só leva esse nome por conta de Tupac Amaru II no Perú. Demonstra, assim, como até mesmo a contracultura, principalmente estadunidense, se utiliza da riqueza cultural-histórica da América Latina. No entanto, o compositor porto-riquenho afirma em sua letra que essa influência cultural latinoamericana não é fruto da atualidade, desde sua presença nos movimentos de contracultura até o calendário utilizado (fruto da civilização Maia) há uma forte presença latina que, por não ser reconhecida, não recebe seus devidos créditos e continua sendo posta como uma cultura marginalizada e até mesmo inferiorizada por meio da violência colonial.


Por último, o Brasil não deixa de ser evidência em partes da obra. As últimas referências a serem abordada nesse texto (a obra em si tem outras que não foram aqui elencadas) são justamente em relação a situação político-social do Brasil, em que a primeira cena faz alusão ao descaso de Jair Bolsonaro em relação às comunidades indígenas e a sua “pátria amada”. Isso se dá por conta da exploração de terras indígenas em troca de royalties para as comunidades, a tentativa de “emancipar” os indígenas para que pudessem explorar as terras onde vivem e a declaração de que é abusiva a quantidade de terras indígenas no Brasil. Uma outra referência diz respeito ao estereótipo de raça e classe no Brasil, uma cena que demonstra a dualidade de opção do negro periférico brasileiro, em que há a capacidade de escolha entre um jogador de futebol ou a criminalidade, mostrando justamente a esteriotipação da sociedade em relação ao negro.


Agora de maneira conclusiva, a obra musical e artística de Residente trás, em diversos momentos, provocações em relação à América, abordando tanto as problemáticas da verdadeira América quanto suas grandiosidades e qualidades absolutas. O ideal anticolonialista, embora não seja exposto claramente em suas letras, é de fato muito evidente na representação do clipe de sua música, principalmente questionando a ausência de uma mentalidade inclusiva para entender que a América Latina também faz parte do continente americano.


Assista o clipe original da obra musical de Residente e apoie os artistas envolvidos https://www.youtube.com/watch?v=GK87A...


¹ Por Boricua entende-se aquele porto-riquenho que nasceu na ilha de Porto Rico. Os porto-riquenhos cuja família reside apenas na ilha de uma ou duas gerações atrás não são considerados porto-riquenhos.


*Estudante do quinto período noturno do curso de Relações Internacionais na Universidade Positivo (2022).


Referências:


ÁVILA-CLÁUDIO, Ronald. 'Bolsonaro começou a destruir o continente': rapper Residente explica por que destacou presidente brasileiro em clipe. BBC News, 22 de Março de 2022. Disponível em: <https://www.bbc.com/portuguese/geral-60842427>. Acesso em: 18 de Abril de 2022.


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