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O ataque azeri à Nagorno-Karabakh: o início de um novo conflito?


Soldados armênios e um soldado russo de manutenção da paz, no veículo, são vistos em um posto de controle em Nagorno-Karabakh — Foto: Mauricio Lima/The New York Times

No dia 19 de setembro o Azerbaijão recomeçou um conflito antigo no Cáucaso, atacando o território etnicamente armeno de Nagorno-Karabakh. Segundo o ministro de defesa azeri, se iniciou uma missão “antiterrorista” com o objetivo de expulsar as tropas armênias da região e dissolver o governo de origem armênia, permitindo assim uma incorporação de facto da região atacada ao território azeri. Entretanto, as autoridades locais reportaram que os militares azeris têm bombardeado não só instalações bélicas, mas também áreas civis, o que causou a morte de ao menos 32 pessoas, entre elas crianças. Além disso ao menos 200 ficaram feridos.


No dia seguinte foi assinado um cessar fogo entre o governo da República de Nagorno Karabakh, não reconhecido internacionalmente, e o Azerbaijão. Além disso, foi acordado que as armas seriam entregues aos militares azeris, e conforme o Primeiro Ministro do Azerbaijão, Ali Asadov, o território, até então considerado separatista pelo governo azeri, será “reintegrado” à República do Azerbaijão.


O território de Nagorno-Karabakh já foi palco de muitas disputas entre Armênia e Azerbaijão. Em 1994, após a dissolução da URSS e da independência de ambos os países, ocorreu a Primeira Guerra de Nagorno-Karabakh, que deixou mais de 30 mil mortos e milhares de civis deslocados. Mais recentemente, em 2020, a região foi mais uma vez palco de disputa entre os países, deixando mais de 7 mil mortos, entretanto dessa vez em um conflito rápido marcado pela mediação russa e pela vitória azeri.


No ano seguinte, diferentes choques ocorreram nas regiões fronteiriças dos dois países. Ambos se acusaram mutualmente de iniciar os conflitos que mataram dezenas de soldados azeris e armênios. Já em setembro de 2022, em meio às constantes desavenças, o Azerbaijão invadiu território armênio e atacou alvos militares e civis com a justificativa de que militares armênios estavam implantando minas terrestres em território azeri.


No primeiro semestre de 2023, houve rumores de que o governo da Armênia estaria pronto para reconhecer Nagorno-Karabakh como parte do Azerbaijão se a segurança da população armênia local fosse assegurada. Entretanto, nenhum documento oficial foi emitido pelo governo armênio e no mesmo período pequenos conflitos entre os soldados dos países recomeçaram.


Atualmente tensões tem se desenvolvido sobre o corredor de Lachin, que segundo o cessar fogo de 2020, deveria ser monitorado por forças russas. Entretanto, por conta da guerra na Ucrânia, os militares presentes na região retornaram ao seu país, o que permitiu o avanço de militares azeris à região, bloqueando o acesso de armênios à Nagorno-Karabakh, e intensificando a tensão entre os países.


Além disso, outros países da região já se posicionaram sobre o tema, aumentando a temperatura das discussões, assim como o risco de uma escalada militar na região. A Turquia, país de origem étnica semelhante ao Azerbaijão, tem nas últimas décadas apoiado o governo de Baku, enquanto o Irã, por motivos econômicos e com o objetivo de manter certa influência no Cáucaso, apoia Yerevan.


Após 2020, ficou claro que a capacidade militar azeri é superior à armênia, portanto, a não ser que Yerevan consiga algum apoio militar por parte do Irã ou da Rússia, o governo armênio terá que aceitar a incorporação de seu importante território étnico-histórico de Nagorno-Karabakh ao país rival. Ao entrar no conflito de maneira aberta é possível que haja o avanço de tropas azeris para dentro do território reconhecido pelo Azerbaijão como armênio, principalmente no Sul, na província de Syunik que separa o Azerbaijão de seu exclave de Nakichevan, que faz fronteira com a Turquia e Irã.


Por fim, pode-se questionar o motivo de não haver a devida atenção por parte dos meios de comunicação a um conflito que tem se perdurado há décadas no Cáucaso e que causou, até o momento, a morte de ao menos 50 mil soldados e civis. É necessário que sejam reportados esses acontecimentos à população, para que a opinião pública saia em defesa dos Direitos Humanos e da defesa de minorias étnicas, e que assim pressione os Estados a buscar por um desenrolar pacífico do conflito, gerando um precedente não apenas para conflitos étnicos-históricos do Cáucaso, mas em todo o globo.


Autor: Davi Phelipe Marcelino Farias

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