Vidas palestinas em risco devido à falta de repasses

A União Europeia exige mudanças em textos escolares para liberar uma ajuda de 215 milhões de euros e a Agência da ONU para Refugiados Palestinos está cada vez mais em risco de fechar devido à diminuição de financiamento.


Por Fernanda Bortolan*

Fonte: Baz Ratner / Reuters (editada)


Não é de hoje que os palestinos enfrentam dificuldades. Desde a criação do Estado de Israel, em 1948, perdura uma disputa territorial que gerou miséria e culminou no que é considerada a maior e mais antiga situação prolongada de refúgio no mundo, correspondendo a quase 40% do total de pessoas que se enquadram nessa categoria. Na faixa de Gaza, o cerco israelense e os constantes bombardeios empurraram grande parte da população para abaixo da linha da pobreza, fazendo com que cerca de 63% da população necessite de algum tipo de ajuda humanitária.


O maior contribuinte financeiro de ajuda humanitária a Palestina é a União Europeia, que anualmente envia grandes remessas de dinheiro à Autoridade Palestina, para que esta possa manter um governo atuante e desenvolver políticas para o povo palestino. Entretanto, uma parte do dinheiro proveniente da União Europeia foi congelada, após a aprovação da proposta apresentada pelo representante da Hungria, Oliver Varhelyi, que alega que materiais escolares palestinos – que estão alinhados com os padrões da UNESCO – precisam passar por revisões e modificações por conterem incitação e conteúdo antissemita. O valor de quase 215 milhões de euros, contudo, é vital para a Palestina e tem posto diversos setores em risco.


Um exemplo de setor afetado é o setor hospitalar. Segundo o Norwegian Refugee Council (NRC), a suspensão da ajuda está paralisando e impedindo serviços, incluindo tratamentos cruciais. A organização também afirma que pelo menos 500 pacientes de câncer, diagnosticados a partir de setembro de 2021, não têm tido acesso adequado a tratamentos no hospital Augusta Victoria, na parte ocupada de Jerusalém oriental. A face mais cruel da impossibilidade de tratar adequadamente pacientes é que alguns foram a óbito, o que poderia ter sido evitado, segundo a Federação Mundial Luterana, que administra o hospital.


Outra preocupação recente, que também mexe com as estruturas que fornecem ajuda aos territórios palestinos, é a proposta de delegar a outras agências da ONU alguns serviços feitos pela Agência das Nações Unidas para Refugiados da Palestina (UNRWA). A agência foi criada um ano após a fundação de Israel e seu caráter temporário é renovado há mais de 70 anos, uma vez que os desdobramentos do conflito Israel-Palestina perduram até hoje. Ela tem como função ajudar refugiados palestinos atingidos pelo conflito e é a única entidade da ONU dedicada a atender um único conflito e povo.


Contudo, a UNRWA vem apresentando uma queda drástica de financiamento ao longo dos anos, e a divisão de funções com outros órgãos das Nações Unidas é vista por muitos palestinos como uma tentativa de acabar com a agência. A UNRWA é, nas palavras de Muhamed Shehada, chefe de programas e comunicações do Euro-Med Human Rights Monitor, um lembrete “de que a comunidade internacional tem a responsabilidade de resolver o problema dos refugiados palestinos”.


A situação em que os palestinos vivem atualmente é, sobretudo, humilhante e deveria ser tratada como uma vergonha e uma falha em nossa humanidade. O mínimo de dignidade lhes é negado, sem acesso a direitos básicos, tendo que viver às custas de doações internacionais que podem ser cortadas a qualquer momento, deixando-os novamente em uma miséria sem fim. A criação de agências e o oferecimento de ajuda humanitária, ainda que extremamente necessárias, acabam por apenas mitigar as consequências, sem tratar a verdadeira causa do problema: a falta de uma solução permanente para o conflito israelo-palestino e a ausência de um Estado palestino como previsto na resolução 181 da ONU, também conhecida como Plano de Partilha da Palestina de 1947.


Em entrevista a NRC, Muhammad, um senhor de 74 anos de idade, cuja única fonte de renda provém do Ministério de Desenvolvimento Social, que depende da União Europeia, traduz bem a vontade de um povo que deseja o mínimo para sobreviver: “Nós não pedimos para viver como o resto da humanidade, apenas um quarto da vida que eles vivem já seria suficiente, nada mais”.


*Estudante do sétimo período diurno do curso de Relações Internacionais na Universidade Positivo


Referências:

AL JAZEERA. Palestinian lives at risk if EU continues to withhold aid: NRC. 2022. Disponível em: https://www.aljazeera.com/news/2022/5/24/eu-withholding-aid-risks-palestinian-lives-rights-group-nrc. Acesso em: 24 maio 2022.


HAARETZ (org.). European Union aid to Palestinian Authority delayed. 2022. Disponível em: https://www.haaretz.com/world-news/europe/2022-03-15/ty-article/.premium/european-union-to-vote-on-conditioning-palestinian-aid-on-incitement-in-schools/00000180-5bbb-de8c-a1aa-dbbba79f0000. Acesso em: 28 maio 2022.


ISTOÉ DINHEIRO. Palestinos temem por futuro da agência da ONU para refugiados. 2022. Disponível em: https://www.istoedinheiro.com.br/palestinos-temem-por-futuro-da-agencia-da-onu-para-os-refugiados/. Acesso em: 27 maio 2022.


NORWEGIAN REFUGEE COUNCIL. Palestine: EU aid delay puts lives at risk. 2022. Disponível em: https://www.nrc.no/news/2022/may/palestine-eu-aid-delay-puts-lives-at-risk/. Acesso em: 28 maio 2022.


STEPHAN, Claudia. A burocratização da segurança internacional: a prolongada assistência humanitária da UNRWA aos refugiados da Palestina no Oriente Médio. Conjuntura Global, Curitiba, v. 7, n. 3, p. 276-296, 28 dez. 2018. Universidade Federal do Paraná. DOI: 10.5380/cg.v7i3.62631. Disponível em:https://revistas.ufpr.br/conjgloblal/article/view/62631/37443. Acesso em: 27 maio 2022.