Um novo “normal”

Atualizado: 12 de set. de 2021

As novas tendências globais podem significar, finalmente, o começo do século XXI


Por Sara Clem*

Crédito: Getty Images via UOL (editada)


A pandemia do novo coronavírus trouxe consigo uma nova maneira de lidar com o mundo, como também novas indagações sobre o futuro. As perguntas que fazemos são: quando voltaremos ao normal? Será que o mundo será o mesmo de antes da pandemia?


Para a historiadora Lilia Schwarcz, a pandemia veio como um marco histórico de uma nova era, a do século XXI. Dessa forma, demonstra um divisor de águas frente à maneira com que os indivíduos viviam na pré-pandemia.


Essa reflexão a respeito de eras vem do historiador Eric Hobsbawm. Para ele, o fim do século XIX se deu com o fim da Primeira Guerra Mundial (1914-1918). Nunca houvera uma guerra mundial antes, com impacto tão grande no que diz respeito ao número de mortos, à economia mundial, à destruição da era dos impérios. A noção que guiou todo o século XIX, de uma sociedade civilizada e, dessa forma, de homens racionais que não cometiam atrocidades, foi desmantelada. Para Hobsbawm (2003), as guerras locais, regionais e globais, no século XX, se deram em uma escala jamais vista antes. Assim, era impossível enxergar uma continuação da paz, ou de qualquer outro elemento do passado, no período pós-Primeira Guerra.


Tendo em vista isso, segundo os autores, é possível alegar que é a experiência que molda a nossa dimensão de tempo, e não a simples virada cronológica de um século. Schwarcz ainda afirma que a pandemia surge de encontro à era da tecnologia do século XX, e revela os limites da mesma, ao passo que, em uma sociedade ditada pela rapidez de informações e compromissos, a crise vem para desacelerar e humanizar tais atividades. Isso abre caminho para uma reflexão das prioridades da vida humana.


Em meio a essa desaceleração promovida pela crise, a vida do ser humano pode encontrar lugar para flexibilização no trabalho e na vida social. Entretanto, os efeitos da crise não são iguais a todos. Existe uma parte da população que sofre um impacto maior, ao mesmo tempo em que tais grupos enfrentam uma maior desigualdade social, muitas vezes, não sendo possível uma flexibilização nos aspectos citados. Como tendência para o século XXI, mostram-se necessárias, mais do que nunca, ações sistêmicas legítimas que ajudem essa parte da população.


Schwarcz ainda afirma que de fato, o mundo já passou por crises parecidas. A gripe espanhola em 1918 é um exemplo disso. Tal experiência não serviria de aprendizado para a crise atual? A historiadora afirma que posições negacionistas sobre a gravidade de uma crise sempre existiram, e, dessa forma, aprendizados com a história às vezes não são possíveis, já que a própria história é negada. Neste caso, há uma percepção de que agora será diferente porque os tempos são outros, e “a tecnologia nos salvará”. Uma das críticas de Schwarcz consiste justamente em que, no século XX, mesmo com experiências históricas e grande desenvolvimento de tecnologias, não houve empenho suficiente para criar métodos de prevenção de pandemias.


Sendo assim, o mundo atual já mudou, e, segundo Schwarcz, certamente teremos que lidar com um “novo normal”. Em tempos de uma sociedade pós-moderna, acelerada e de certa forma, desumanizada, a pandemia do novo coronavírus marca um divisor na desaceleração da tecnologia, e assim, pode ser considerada um marco histórico referente a novas tendências comportamentais para o século XXI. Agora, mais do nunca, será necessário se adaptar e promover ações efetivas tanto no campo da saúde, quanto no social.


* Aluna do terceiro ano noturno do curso de Relações Internacionais na Universidade Positivo (2020).


Referências:

HOBSBAWM, Eric. A Era dos Extremos. 2. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2003. p. 7-32.UOL.


100 DIAS QUE MUDARAM O MUNDO. Disponível em: https://www.uol.com.br/universa/reportagens-especiais/coronavirus-100-dias-que-mudaram-o-mundo/.