Abuso de Garimpeiros contra Tribo Yanomami

Cresce cada vez mais o descaso com a situação Yanomami no norte do Brasil e entidades responsáveis optam por não se envolver no assunto.


Por Guilherme Orguinski*

Criança Yanomami com desnutrição e malária, na aldeia Maimasi. Crédito: EL PAÍS (Editada)


O garimpo ilegal vem se tornando um problema cada vez maior no Brasil, principalmente em terras com demarcações indígenas. A tribo Yanomami é uma das mais afetadas na região do norte do país com as práticas de garimpo ilegal. Segundo dados da Hutukara Associação Yanomami, “cerca de 56% dos 27 mil habitantes da Terra Indígena Yanomami são afetados diretamente pelo garimpo”. Tal população sofre com altos índices de violência, além de abusos sexuais e exploração.


O povo Yanomami constitui, atualmente, uma das maiores tribos indígena da América Latina e está situado principalmente no norte do Brasil e sul da Venezuela. A tribo vem sofrendo há décadas com as invasões de terras que acontecem na região, visando, na maioria das vezes, o garimpo. Entretanto, a partir de 2018 a situação piorou consideravelmente, com a intensificação de violências ocorrendo por parte dos garimpeiros que invadem locais com demarcações indígenas, abusam sexualmente de meninas e jovens, oferecendo-às comida, vestimentas, bebidas alcoólicas, entre outros itens em troca de sua “aproximação”. Ainda, segundo a Hutukara Associação Yanomami, torna-se cada dia mais comum de se ver casamentos ocorrendo entre garimpeiros e adolescentes indígenas, existem diversos relatos sobre casos de pedofilia envolvendo crianças de apenas dez anos de idade.


De acordo com relatos de moradores da região, é comum que os garimpeiros ofereçam comida para meninas e mulheres indígenas em busca de confiança, quando elas perdem o medo e aproximam-se é que o abuso ocorre. Há também descrições de garimpeiros que oferecem alimentos para os pais em troca de suas filhas. Todos esses fatores, ligados à toda situação de vulnerabilidade encontrada no local, culminam na inevitável alta incidência de abusos e aliciamento de jovens indígenas.


Além de toda a questão de abusos físicos diretos aos povos da região, a contaminação das águas e destruição de mata nativa, causados pela prática ilegal do garimpo, acaba por arruinar boa parte da biosfera local, ocasionando na morte de animais e também destruindo o sustento daqueles que lá vivem. Desse modo, torna-se cada vez mais comum casos de crianças com desnutrição extrema nessas regiões, já que as famílias não tem como prover o sustento básico. Ademais, a chegada de ajuda humanitária é também controlada pelos garimpeiros, que dominam as áreas com demarcações indígenas e dificilmente permitem a aproximação de helicópteros e aviões.


Nos três últimos anos, a atividade ilegal triplicou na reserva Yanomami, apesar de todo o apelo da região por resposta e proteção, nenhuma medida realmente eficaz foi tomada por nenhuma entidade. A Fundação Nacional do Índio (FUNAI), órgão responsável pela proteção de povos indígenas no Brasil, alegou em nota que desconhecia os dados sobre os abusos feitos aos indígenas da reserva e que também não comentaria sobre informações consideradas “extraoficiais”. Ora, o órgão ainda relaciona e culpabiliza a migração venezuelana pelo aumento no número de garimpos ocorridos na região.


Mesmo existindo um órgão que deveria ser responsável por resolver situações como as que o povo Yanomami vem passando, é facilmente observado o descaso e a falta de interesse por parte da FUNAI. O órgão não apenas opta por não tomar atitudes diretas, como, além de tudo, nem reconhece os abusos sofridos pela população da região como algo verídico. Nesse mesmo sentido, vemos o atual governo criando políticas como a legalização de “mineração artesanal” na região da Amazônia, que basicamente facilita ainda mais a invasão de terras demarcadas, demonstrando o descomprometimento que o atual presidente e seu governo possuem com toda a questão indígena no país. Enquanto tais medidas continuarem, é muito improvável que essas pessoas, que vem enfrentando tantas dificuldades, recebam condições para viver de maneira digna.



*Estudante do terceiro período noturno do curso de Relações Internacionais na Universidade Positivo (2022).


Referências:


MODELLI, Lais. Garimpo leva violência sexual, aliciamento, crime organizado e doenças às terras Yanomami. 2022. Disponível em: <https://brasil.mongabay.com/2022/04/garimpo-leva-violencia-sexual-aliciamento-crime-organizado-e-doencas-as-terras-yanomami/>. Acesso em: 20 abr. 2022.


OLIVEIRA, V.; DAMA, J. Desnutrição infantil, garimpo e Covid: entenda os problemas que afligem a Terra Indígena Yanomami. Disponível em: <https://g1.globo.com/rr/roraima/noticia/2021/05/27/desnutricao-infantil-garimpo-e-covid-entenda-os-problemas-que-afligem-a-terra-indigena-yanomami.ghtml#>. Acesso em: 20 abr. 2022.


FERNANDES, V. Garimpeiros exigem sexo com meninas e mulheres ianomâmi em troca de comida, aponta relatório. Disponível em: <https://www.google.com/amp/s/g1.globo.com/google/amp/rr/roraima/noticia/2022/04/11/garimpeiros-exigem-sexo-com-meninas-e-mulheres-yanomami-em-troca-de-comida-aponta-relatorio.ghtml>. Acesso em: 20 abr. 2022.


A maior violência contra os povos indígenas é a destruição de seus territórios, aponta relatório do Cimi | Cimi

By Renato Santana Year: 2019 Container: Conselho Indigenista Missionário URL: https://cimi.org.br/2019/09/a-maior-violencia-contra-os-povos-indigenas-e-a-apropriacao-e-destruicao-de-seus-territorios-aponta-relatorio-do-cimi/. Acesso em: 20 abr. 2022.


Os Yanomami.

Disponível em: <https://survivalbrasil.org/povos/yanomami>. Acesso em: 20 abr. 2022.


Decreto cria “mineração artesanal” na Amazônia; para ONGs, governo quer incentivar garimpo ilegal. Disponível em: <https://www.google.com/amp/s/g1.globo.com/google/amp/politica/noticia/2022/02/14/governo-lanca-programa-para-estimular-mineracao-artesanal-na-amazonia-legal.ghtml>. Acesso em: 3 maio. 2022.